©2019 by Escultor Alvaro Franklin.

CRÍTICA

Mario Chamie

A escultura de Franklin é despojada e elegante, uma síntese perfeita entre a imagem do objeto e sua coerente unidade. Sua opção artística transcende seu trabalho para refletir sua própria vida – homem e artista em total sintonia.


A escultura em geral e a escultura brasileira em particular sofreram, nas duas últimas décadas, uma espécie de retratação de prestígio. Essa retratação não ocorreu em conseqüência de sua eventual perda de significado e atualidade artística. Talvez tenha ocorrido em função das próprias transformações internas que atingiram a escultura, depois das revoluções da primeira metade deste século. Essas transformações não foram apenas as do material de trabalho escultórico, mas, sobretudo das concepções de massa e volume, forma e movimento, espaço e uso aplicadas sobre ele.


Nesse sentido, ficamos perplexos diante do abismo que separa “peso” de Henry Moore a leveza de Calder; ou a da leveza de Calder a monumentalidade provisória de Christo, que “empacota” edifícios, pontes e montanhas.


Em termos mais nossos, ficamos também perplexos em verificar que, depois do surto modernismo com Brecheret, Bruno Giorgi e outros, nos diversificamos entre abstrações racionalistas e retornos a mitos folclóricos e estilizados, indo da limpeza metálica de Franz Weissmann à beleza densa e primitiva de Stockinger.


A aparente retratação no mercado de arte da escultura talvez tenha, portanto, decorrido do excesso de mudanças e caminhos.

Hoje, diante da diversidade mais ou menos adversa, o que parece contar mais é à contribuição pessoal do artista que não se perde no emaranhado da busca, e que ao mesmo tempo sabe se encontrar simplicidade clarividente de suas soluções.


Um artista a quem desde já somos devedores, pela humildade quase anônima de seu trabalho e pela eloqüência original de seus resultados, é o escultor Álvaro Franklin da Silveira.


No panorama da mais nova escultura brasileira, a sua contribuição – que não pode e nem deve ser continuar da obscuridade – se impõe sem alarde e com a segurança de quem conhece a linguagem que constrói.


A linguagem de Franklin não é dissociada do mundo sensível e das suas correspondências plásticas e simbólicas. A fidelidade de Franklin a esse mundo o leva a contemplação e ao domínio objetivo de suas linhas, superfícies e inter-relações internas. A prova maior disso está em que, antes de fazer uma peça, Franklin fotografa e documenta o seu paralelo e “similar” do mundo exterior e natural.

Depois, estuda o documento e a foto, analisando as suas possíveis analogias de movimento e espaço. Essas analogias é que vão lhe inspirar a criação de um protótipo sobre o qual irá elaborar e produzir sua escultura.


A obra deste artista surpreendente é assim, composta de objetos e de relações entre objetos, como se fossem seres vivos de uma segunda natureza. Uma natureza, diga-se aqui, rica, viva e cheias de descobertas.


A escultura brasileira tem, pois, em Franklin um artista que, através do granito, do mármore, do ônix ou da madeira, testifica a sua força e a esperada restauração do seu abalado prestígio.